Onde mora a felicidade III

“O poema de número 100, simbolicamente construído, que encerra um ciclo e marca o início de outro…”

Se você, nobre amigo,
Em sua jornada plena e abundante,
Com saúde, família, emprego, conquistas,
Ainda sente o vazio que não se preenche,
A infelicidade que insiste em aparecer,
Mesmo não tendo conscientemente
Os motivos para estar assim, 
Tenho algo para lhe dizer,
Que parecerá estranho e jocoso,
Mas que permeia a realidade
De tantos aqui nesta terra.

Vou contar-lhe, estimado amigo,
Onde mora a verdadeira, a pura,
a inigualável e continua felicidade.

Mas antes, tenho de lhe alertar,
Que se busca em tê-la novamente,
Sim, novamente, pois eu já a vivi,
Você já a viveu, todos nós já a vivemos,
Mas não mais a encontraremos nesta vida, 
Você não mais a encontrará nesta vida.

Frustrar-se-á, portanto, meu amigo,
Se tentá-la encontrar novamente, pois
Não importa o que faça, 
Não importa o que tenha,
Não importa os seus amores,
Não importa o dinheiro que acumule,
Não importa a religião que segue,
Pois a felicidade plena novamente,
Não encontrará, não encontrará.

Portanto, ouça com atenção,
Pense sobre o que vou lhe dizer,
E que alguns outros já disseram
Antes de mim.


Hoje, você não se lembra,
Nem que se esforce, 
Mas durante um breve tempo,
Você era o ser mais feliz do mundo,
Problemas simplesmente não tinha, 
O calor contínuo que recebia era o suficiente
Para acalentar o seu corpo,
Você era alimentado
Com a melhor seiva da vida,
Os sons que ouvia eram como 
O magnífico som do mar,
Você tinha liberdade de movimento,
Não era necessário a materialidade
Deste mundo do agora...

Enfim, você tinha tudo o que precisava,
Você tinha todo o carinho necessário,
Você não tinha preocupações, 
Você era, simplesmente,
O ser mais feliz do mundo. 
Aliás, outra sensação
Você nem sequer conhecia.

Sim, é verdade, 
Pode acreditar.

Então pergunto, 
Meu caro amigo,
Como alguém que foi imensamente feliz,
Assim como contei,
Que conheceu a verdadeira essência
Da felicidade,
Pode, no agora deste mundo, 
Encontrar a felicidade abundante e plena
Ao comprar um celular novo?
Ou então um carro?
Uma casa?
Ou trocar de emprego?
De amante?

Não, nunca encontrará!
Talvez, sim, veja a face
De uma breve felicidade,
Que logo passa,
Vindo então, novamente, 
A sensação do vazio,
Que não se preenche.

Calma, repito mais uma vez,
Pois depois de todo esse preâmbulo,
Finalmente vou lhe contar
O momento exato,
Em que você, eu, todos nós,
Fomos expulsos do paraíso,
E para lá não retornaremos.

Você pode não se lembrar,
Mas o momento em que foi expelido
Do mundo perfeito, da felicidade plena,
Foi um dos momentos mais 
Angustiantes de sua vida,
Da felicidade para as incertezas, 
Da felicidade para um mar imenso
De sensações estranhas e doloridas.

Nesse momento, meu amigo,
Você foi expelido do ventre de sua mãe,
Alguns de nós simplesmente arrancados
Com gélido e rijo fórceps,
E a partir de então,
Nada mais seria como dantes.

Sim, não estou brincando,
No ventre de sua mãe
Você tinha tudo o que precisava,
A sensação de felicidade era plena.

Agora, por mais afeto que receba,
Por mais conquistas que tenha,
Por mais que busque 
Nos mais diversos lugares,
Pessoas e experiências,
Nunca terá novamente a sensação
De quando ainda era um feto,
Nunca voltará ao lugar ideal
De onde foi gerado.

Por isso, meu amigo,
A sensação de vazio que você sente,
Nunca será preenchido com nada,
Nem ninguém.

Parece estranho sim,
Bem o sei,
Pois como sentimos falta
De algo que nem lembramos?

Mas tenha certeza, 
A sensação fica,
Como uma música que nos faz lembrar
De um momento do passado,
Como o cheiro de um bolo no forno,
Que nos faz lembrar de entes queridos,
Como um abraço que traz uma sensação de afeto,
Como o barulho do mar que acalma,
Como um banho em água quente,
Que nos faz perder a noção do tempo.

Nada é ao acaso, nada foge de nossa mente.

Portanto, amigo, cabe a cada um de nós,
Viver a vida do agora,
Contemplando os fugazes momentos felizes,
Comemorarmos cada nova conquista,
Respeitarmos o outro que nos acompanha,
Vivermos e convivermos em harmonia e
Crermos no Pai e no dia em que 
Naturalmente diremos adeus. 


Sim, muitos conseguem viver com isso,
Porém, outros tantos, não tão bem.

Por isso não desista da vida, meu amigo,
Por mais que esse vazio traga angústia,
Pois agora sabe, que ele não será preenchido,
E cabe a cada um de nós
Aprender a lidar com esse vazio,
Aprender a perceber e a perdurar 
Os outros momentos felizes,
A buscar a sensação na imersão
Em um banho quente,
Na música da vida
Que mostra a sua face
Diariamente em nossas vidas.

Agora, estimado amigo,
Sabe onde habitou a primeira felicidade,
E cabe a você descobrir onde moram as demais,
Pois são nos detalhes desta vida,
Que encontramos o alimento para nossa alma,
A alegria de nossa existência,
A energia que faz bater forte
O nosso frágil e delicado coração.

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