De repente, o AVC

Olho-te nesta cama fria
Mas não te reconheço 

Onde estarão teus pensamentos?

Os poucos movimentos que ainda te restam
São perdidos, assim como o teu olhar
Quando me olhas

Acaso me reconheces?

Minhas mãos fazem movimentos repetidos,
Creio que nunca tenha acariciado 
Tanto os teus cabelos brancos 
Como nesta madrugada gélida

Neste silêncio tenebroso
Quero que saiba
Que'stou aqui
Ao teu lado

Revivo as caminhadas
o futebol
o ping-pong
os solos com o velho violão

Agora imagino
Os futuros passeios
O senhor,
Nobre Pai,
Em uma cadeira de rodas 
Aproveitando o sol 
Para aquecer a alma

Quem sabe o amanhecer traga esperança
Quem sabe quando abrires os olhos
Consigas ao menos balbuciar
O teu próprio nome
Quem sabe a luz do dia
Faça desaparecer este pesadelo

Não o meu,
Mas o teu,
Onde não consegues
Falar,
Caminhar e
Ser livre

A luz se acende
A mulher de branco adentra
Apressada em seu horário
Medindo a pressão
O nível de glicemia

A luz se vai
Ela se vai
O silêncio novamente retorna
E com ele os meus pensamentos
Imaginando o amanhã
Que já tarda em vir
Fotografia: moldura no quarto do hospital

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