Curso de Adjunto de Comando – o final da jornada

Cordiais saudações a todos,

Neste momento, em que chegamos ao final do Curso de Adjunto de Comando 08/2020, peço permissão para narrar os reais motivos pelo qual estou aqui.

Quando comemoramos a independência do nosso Brasil, lembro do tempo que ainda era criança, e sentava no meio fio, admirando todas as instituições que desfilavam nos momentos cívicos. Mas uma instituição era especial, o meu coração acelerava ao sentir o chão tremer ao passo uníssono de dezenas de soldados do 5º Batalhão de Engenharia e Combate, em Porto União-SC, que desfilavam e executavam movimentos perfeitos. Imaginem então quando ouvia rajadas de metralhadora, os olhos aqui do “neguinho”, forma carinhosa como a minha falecida avó me chamava, ficavam esbugalhados. Era impossível não sonhar em não vestir aquela farda verde, e entrar em um tanque de guerra.

O tempo passou, e talvez já com o dobro da idade, 13, 14 anos, um amigo que servia o Exército, sabendo do meu sonho, deu-me um calção verde oliva, que prontamente tornou-se a minha segunda pele, mesmo ficando, como brincavam, um calção de “pegar porco em banhado”, pois tinha ficado bem largo para aquelas pernas finas. Ele era usado para tudo. Dormia, levantava, brincava, ia a missa com ele. Nesse ritmo, é claro, o coitado não aguentou muito tempo. Para a minha infelicidade, perdeu a cor e acabou rasgando.   

Pois bem, o tempo passou mais um pouco. Alistei-me e para me preparar, corria, pagava flexão, barra. Na inspeção de saúde, o primeiro trauma. Ladeado por vários outros adolescentes, só de peça íntima, um militar chegou e disse: “abaixa a cueca, assopra no dorso da mão”. Só executei, mesmo sem entender nada. O processo continuou. Na entrevista: “quer servir na NPOR”, sim senhor, disse eu. “E se não for”, também sim, disse.  Mas, acredito que eles não acreditaram. Resultado: dispensado por excesso de contingência. A frustração foi imensa.

O tempo continuou passando, casei, dois filhos, ingressei como sargento na Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) em 2004.

Em 2019, foi publicado na PMSC um edital com ofertas de vagas em cursos no Exército Brasileiro. Queria todos, mas o curso escolhido foi o de Adjunto de Comando, o qual não fazia a mínima ideia do que era. Mas sabia que poderia ir de carro até o Rio Grande do Sul, que lá haveria alojamento disponível, e, muito possivelmente, rancho e, ainda, a Polícia Militar manteria o meu soldo durante o curso. “Perfeito!”

Senhores, então aqui estou, em um dos momentos mais felizes da minha vida, e com 41 anos realizo um sonho.

Com isso, enfatizo a cada um dos senhores, honrem cada vez mais a farda verde oliva que ostentam, orgulhem-se, pois cada um dos senhores, por onde passam, servem de inspiração, os senhores, por mais que não percebam, projetam sonhos nas mentes de várias crianças, dão esperança, carregam a força e a grandeza de nossa pátria amada.

Por fim, não poderia terminar sem enaltecer o ambiente que encontrei aqui na Escola de Aperfeiçoamento de Sargentos das Armas – EASA, e sobre o Curso de Adjunto de Comando. Todos que participaram do processo são dignos de lembranças, mas em reconhecimento cito os mentores: Coronel Fioravante, comandante da EASA, sempre presente na condução desta escola e cuja assinatura, feita de próprio punho no cartão de boas-vidas, denotou já no início da minha estadia, valores de um comandante e líder. 1º Tenente Lima, instrutor chefe do curso, exemplo de liderança, aquele que motiva, elogia e também cobra. 1º Sgt Linhares, o monitor incansável, que nunca dorme, sempre pronto para qualquer demanda. SGM Carrion Cruz, que em um gesto imenso de humildade e liderança, abriu as portas de sua casa, mostrando-nos a sua história profissional, digna de elogios.

Esses protagonistas servem de inspiração para quem busca a excelência, portanto, servem de exemplo para os 128 Adjuntos de Comando, turno 08. O curso de excelência que vi aqui, só poderia, é claro, ser conduzido por profissionais do mais elevado gabarito, que contaram com o apoio de instrutores do mesmo senso de profissionalismo e empenho na missão.

Aqui encontrei irmãos de farda, líderes em sua plenitude, os quais agradeço imensamente por suas histórias. Com elas estive na selva amazônica, em um “posto enterrado de comando e controle”; saltei a 10 mil pés e vi em câmera lenta a parte inferior da aeronave; escalei montanha e senti a dor na face ao ser atingido por um fuzil derrubado por um colega que estava acima. Senti a agonia e a intensidade de trabalhar em comunidades cariocas, enfrentando a violência e puxando 4×6, dormindo em contêineres. Fui até o Haiti, vi a fome no rosto de crianças, vi o sofrimento das pessoas após um terrível terremoto… dentre tantas outras que daria um livro.

Histórias de verdadeiros heróis, cujas lembranças, não tenham dúvidas, contarei durante a noite de Natal, quando confraternizar com meus filhos, pais e demais familiares.

Nobres Adjuntos de Comando, o coração dos senhores é grandioso, a liderança vos pertence, nunca esqueçam dos seus sonhos, e jamais, jamais esqueçam que os senhores são a inspiração de alguém, dos seus filhos, sobrinhos, amigos, ou na multidão, de uma criança desconhecida, sentada no meio-fio.

Obrigado por realizarem o meu sonho, e que o grande Pai abençoe a cada um dos senhores e vos conceda muita saúde e felicidade!

Salve o Exército Brasileiro, Salve Adjuntos de Comando.

Brasil acima de tudo!

Respeitosamente,

S Ten Wiltner

Cruz Alta-RS, 15 de dezembro de 2020.

*Texto realizado por término do Curso de Adjunto de Comando 08/2020

Adjunto de Comando do Comandante do Exército Brasileiro, 2º Tenente Edi Carlos (E), Subtenente Wiltner

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