Homem cordial: a igualdade em Bolsonaro, Moro e Lula

Qualquer reflexão mais profunda neste aparente caos na troca de peças do tabuleiro é arriscado, mas algumas podem ser feitas sobre Bolsonaro, Moro e o “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda.

Esse historiador, em seus estudos sobre a origem e evolução da sociedade brasileira, desenvolveu a teoria do “homem cordial”.

Essa expressão não quer dizer que o homem seja cordial, bom, mas vai muito mais além, marca a história do desenvolvimento do homem brasileiro, que se caracteriza pela pessoalidade nas relações, priorizando o privado e não o público.

Agindo com o coração, o homem cordial, considerando essa pessoalidade, é capaz de praticar tanto o bem quanto o mal.

E Bolsonaro, Moro e Lula?

Simples, quer dizer que os homens públicos, aqueles que governam o nosso país, independentemente do discurso de moral que apregoam, do quanto se digam honestos, difusores da verdade ou qualquer outra manifestação que os tangenciem de bom moço, têm o homem cordial encrustado na alma.

Assim, todo o esforço que faz o presidente em blindar os seus filhos é movido pela pessoalidade, interesses privados, independente do discurso que adota contra a corrupção. Coloca, assim, os interesses pessoais acima do público.

Isso parece ser inadmissível para alguém que se elegeu dizendo “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

O ex-ministro, preocupado com a sua reputação deixa o governo ao perceber que as irregularidades eram crescentes.

O bom moço, Sérgio Moro, entretanto, parece não ser tão bom moço assim, pois também está inflado do homem cordial de Sérgio Buarque.

Ora, ele mesmo admitiu no início da coletiva na qual pediu exoneração, que uma das condições para assumir como ministro era a de que a sua família fosse “amparada” caso acontecesse algo a ele durante a jornada na Justiça.

Ou seja, um dos primeiros atos foi levar o privado acima do público, exigindo que o presidente da república desse um jeitinho para viabilizar um “amparo”.

Por sua vez, o próprio presidente aceitou essa condição, e novamente, agindo pelo coração, apertou as mãos da pessoalidade, da valorização das ações dotadas de pessoalidade, do privado.

Conclui-se, portanto, que, no mínimo, essa relação envolvendo um presidente e um ministro da Justiça iniciou de modo estranho.

Algum mal nisso?

Ora, podemos pensar, “que mal pode haver em um homem querer que sua família receba algum benefício?”

Se pensar que não há nenhum mal em ter de dar um jeitinho para amparar a família de alguém, seja esposa, filho ou qualquer familiar, também não há razão para condenar o presidente de estar tentando blindar alguns de seus filhos, tampouco culpar, por exemplo, o ex-presidente Lula em ter, de alguma forma, beneficiado também os seus.

O homem cordial de Sérgio Buarque é praticamente uma regra, sendo a pessoalidade, a valorização do interesse privado no serviço público uma realidade inegável.

Portanto, os três, Bolsonaro, Moro e Lula, têm mais em comum do que imaginam, o que muda é o tempo e a intensidade.

E o cidadão comum?

Cabe, aqui, de certa maneira repetir a última frase: “o que muda é o tempo e a intensidade”.

Nesse sentido, todas as vezes que você, leitor, faz algo pensando não na coletividade, mas simplesmente em você mesmo, está alimentando o homem cordial.

Isso ocorre ao infringir a lei ao falar ao telefone enquanto dirige; parar na faixa de rolamento para o filho ir à escola; conversar com algum conhecido na prefeitura para agilizar algum procedimento; e todas as outras vezes que você opta em priorizar o privado, pessoal, ao invés do público, mesmo sabendo que se trata de pequenas infrações ou até mesmo beirando a imoralidade.

O que mudam são as dimensões das ações, e o que em nosso dia a dia é “normal”, “todo mundo faz”, lá no mundo distante, por sua vez, é tido como imoral, ilegal, um crime grave que deve ser punido severamente.

Eles são representantes do povo, não uma raça alienígena que veio para expurgar a corrupção, o mal, a indecência da humanidade, ou pelo menos no Brasil.

Enquanto acharmos certas condutas normais, continuaremos a ter representantes que também acham, pois também fazem parte do todo.

Mudança

Pense nisso ao sonegar impostos; usar de influência; cometer infrações; pedir ou dar favores; tentar fazer com que o policial não dê uma multa… Pense no que estamos perpetuando e qual país queremos deixar para os nossos filhos, netos.

Leia mais:

Bolsonaro determina quarentena para conter coronavírus

Imagem capa:

https://epoca.globo.com/brasil/o-que-linguagem-corporal-revela-sobre-lula-bolsonaro-moro-maia-23874758

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s