Se cair, levante

Pensem na bela imagem,
Pincelada ao acaso,
Mas digna de ser exposta,
Na mais refinada exposição!

Pensem no entardecer de outono,
O céu ornado em tons de vermelho,
As andorinhas sobrevoando
Em trajes de gala.

Pensem na cena idílica,
Inspiração para poetas,
Inspiração para o avoado
Cupido dos amantes:

Na calçada ladrilhada
De pedras negras e brancas,
Caminhava uma linda mulher,
Que arrastava olhares
Não apenas de homens,
Seduzidos pela beleza,
Mas também de mulheres
Que boquiabertas amavam,
E ao mesmo tempo,
Odiavam o que viam…

Uma bela saia solta,
Em tons de vinho tinto,
Que mal cobria seus joelhos,
Sapatos de salto alto,
Negros com filete de cristais,
Meia de seda cor da pele,
Que se estendiam até o alto,
Um corpete perolado,
Colado, brilhante,
Uma tiara,
Fina e delicada.

Coluna ereta em direção ao céu,
Olhar profundo e estonteante,
Cabelos longos e sedosos
A balançarem delicadamente
Ao caminhar suave e sereno.

Mas creio que o amargo ciúme
De alguma deusa do Olimpo,
Fez a bela dama despetalar-se
Pelo chão.

Ao dar mais um passo em sua moldura,
Eis que falta uma peça branca,
E naquele local, sobra um vazio,
Pequeno, mas funesto,
Insípido, mas amargo,
Inerte, mas que fez a estonteante mulher
Esparramar-se pelo chão.

O tempo parou dolorido,
A saia circundava o corpo que,
Lentamente,
Se recompunha…

Seu olhar foi ao encontro
Daquele pequeno buraco na calçada,
E depois fitou o salto quebrado,
E logo após a sua saia empoeirada,
E suas delicadas mãos,
Agora com pequenas ranhuras,
Avermelhadas e doloridas.

De olhos congelados,
Todos viram o peito da mulher
Suavemente inflar
Em uma inspiração profunda e lenta,
Todos viram seus esbugalhados olhos
Se fecharem,
E seus trêmulos lábios,
Inesperadamente,
Sorrirem!

Tirou ambos os sapatos,
Segurando-os nas mãos,
Percebeu que ao lado do canteiro,
Com um pequeno manacá,
De singelas flores rosas,
Perdido, o ladrilho que faltava.
Apanhou, tateou,
E mais ainda, sorriu,
Colocando-o em seu devido lugar,
Tapando o espaço na moldura.

Mas eis que a invejosa deusa,
Imagino eu,
Que deve ter ficado, deveras,
Ainda mais furiosa,
E vendo que todos admiravam
Mais ainda aquela linda mulher,
Que caminhava agora descalça,
Sorridente e ainda mais feliz,
Apronta outra,
No caminho de sua vida,
Naquele entardecer lindo
E majestoso…

Os lindos pés desnudos,
Tocando suavemente
os ladrilhos envergonhados,
vão de encontro a poucos passos,
a um pedrisco solitário e perdido,
pontiagudo e esperando
o calcanhar da bela dama.

A plateia estupefata
E de coração na mão,
Vira o rosto para não ver
A feição de intensa dor
Da linda dama,
Que novamente estava ao chão.

Respiração pesada,
E de olhos encharcados,
Ela volve o seu olhar
Para a pequena lesão,
Aberta em seu calcanhar.

Entretanto,
Nem a deusa e ninguém deste mundo,
Jamais imaginaria
O que novamente aconteceria…

Na pequena bolsa,
Encravada de pedras esverdeadas,
Ela coloca a sua mão,
Mexe para lá e para cá,
Tirando um pequeno curativo
De cara de bichinho.

Suavemente coloca na ferida,
Escondendo a seiva que saía,
E novamente,
Acreditem ou não,
Esboça outro sorriso,
Enquanto fitava os seus pés.

Então todos seguraram as lágrimas,
Quando viram aquela linda mulher
Erguer-se como uma bailarina,
Na ponta dos pés,
E inacreditável sorriso no rosto!

Segurando seus sapatos em uma das mãos,
A pequena bolsa na outra,
Foi saltitando até a esquina,
Onde desapareceu de nossos olhares.

Aquele pequeno mundo acordou
Somente quando um motorista
Que ali chegou e nada entendeu,
A sua estridente buzina apertou,
O trânsito então fluiu,
As conversas recomeçaram,
A vida continuou…

Que a bela dama encantou,
Não posso sequer pensar em negar,
Mas se tudo aquilo que ela passou,
Naquele majestoso entardecer
Foi obra de uma invejosa deusa,
Já não posso afirmar!
Mas se foi,
Ah, eu fico imaginando,
A cara dela
Quando viu aquela mulher,
De linda saia e sorriso estampado no rosto,
Cair,
Ferir o calcanhar,
Gemer de dor,
Sangrar,
E mesmo diante dos percalços,
Viu a infinita oportunidade
De levantar após cada queda,
de sorrir não importasse a dor,
e de continuar sem medo,
o seu caminho,
e os seus desafios.

2 comentários

  1. Oiii Luiz Boa noite.
    Novidades com relação ao mestrado ?
    Sobre validação e se vocé tem interesse de fazer doutorado e se os trâmites são iguais.

    Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy.

    Curtir

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