Pequeno monólogo: Estranho amor que habita o nosso ser

Deus da vida e da morte, não permita que eu deixe o tablado sem tocar na mulher dos meus sonhos, de amor puro, jovial beleza, que encantará os olhos mortais.

Deixe-me logo ver o amor, muito sentida, mas que eu ainda verdadeiramente não sei o que é.

Os mestres falam que é algo profundo, tanto quanto o abissal oceano, tão ardente quanto a chama do sol, tão maravilhoso quanto o desabrochar de rosas vermelhas em sua temporada!

E o imagino como sendo a perfeita simetria: olhos negros como a escuridão, ancas esculpidas pelas mãos do mais perfeccionista escultor, lábios e face tocados por Afrodite.

Quando chegar o momento de ela entrar neste tablado, os sons da arpa e da clarineta a precederão, e finalmente a multidão abrirá os olhos nesta cansativa peça.

A receberei em meus braços, dançaremos, darei a minha alma para a sua felicidade…

Mas se o vento da perdição, com os seus sopros vier a espalhar as falas, e o meu amor me abandonar no ápice, não responderei pelos meus atos, estarei cego e prometo que em noite sem luar, envolto em capa negra e sob a luz de velas, dar-lhe-ei, em taça de cristal, um líquido doce e mortal, que apenas saberá quando em meus braços estiver perdendo a vida.

Selarei a sua morte com um beijo, buscando os resquícios do pecado em seus lábios, para juntos nos elevarmos no reino onde tudo é belo e eterno.

Seria inspiração para Shakespeare, a plateia ficaria em lágrimas com seus corações pulsando em suas mãos…

Tudo porque não aguentaria ver a mulher da minha vida, aquela que eu amaria ter amado, nos braços de outro, dando seus lábios e seu sorriso que pertenciam a mim.

Como a ânsia de morrer toma a minha vontade nesta vã existência. Como posso desejar ardentemente o amor e ao mesmo tempo pensar em matar a mulher amada em nome desse amor?

Eu não tenho nada, eu não sou nada! e isolado neste quarto escuro não a vejo em lugar algum. Ela toma vida e habita tão somente os meus devaneios.

O labirinto do amor me embriaga, aceito em meu âmago o licor avermelhado desta taça que tateio em profundo silêncio. Meu Deus! Dê-me outro papel… pois agora deixo este que sofre em profunda solidão: Escorra em minha garganta, doce e gélida libertação.

 

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