Onde mora a felicidade

O majestoso sobrado branco,
com suas portas e janelas verdes adornadas,
repousa à sombra sossegada
de um enorme chorão,
em amplo terreno com grama verde aparada,
brincam nas aéreas raízes
um amado casalzinho,
ela com seus cabelinhos cacheados,
ele com suas bochechas em tons de rosa,
que denunciam um pega-pega eletrizante.

Mais ao lado uma linda mulher,
cabelos dourados soltos ao vento,
olhos verdes claros cativantes,
de corpo torneado e pele macia,
que sorri em minha direção.

Olho para o céu e agradeço pela vida,
olho para o céu e agradeço pela família
que encheu meus olhos de alegria,
olho para os olhos dela e agradeço,
pelo pedaço de pão, biscoitos
e pelo copo de café com leite.

Levanto do meio-fio,
pego meus trapos encardecidos
e me vou, mas não sem antes
olhar para trás…

Andarilho, vagabundo, desgraçado,
me chamem do que quiser,
mas fiz votos de pobreza extrema,
para sofrer tudo nesta vida
e gozar de felicidade na outra.

Mas antes de mentiroso também me chamar,
ouça uma breve parte, de uma longa e triste história,
que agora vou lhes contar:

Conheci amada Helena ainda jovem,
de sedosa pele morena,
olhos castanhos escuros,
cabelos negros ondulados,
como era linda e amorosa,
gentil e carinhosa.

Nos apaixonamos,
nos enamoramos,
nos amamos e
nos casamos.

Uma casa de madeira com varanda,
um lindo jardim florido com rosas vermelhas,
um labrador bobão e brincalhão
uma deliciosa rede armada a balançar,
na parede pendurada uma plaqueta escrito
“lar doce lar”.

Haveria felicidade maior?

Ah, sim!
Helena, minha amada,
fez meu mundo perder o chão,
ao sussurrar em meus ouvidos,
naquele amanhecer de domingo primaveril,
aquele sussurro tão curto,
tão inesperado,
sonhado…

“Estou grávida!”
Ela, pegou em minhas trêmulas mãos,
que repousaram em seu ventre.

Quase tive um infarto de tanta emoção,
era tanta alegria que a tomei em meus braços,
e a beijei com toda a minha alma.

A felicidade não tinha limites,
os dias passaram perfeitos,
coloridos, doces, musicais.

O grande dia chegou…

Levei Helena para o hospital,
sentei e esperei,
ansioso, angustiado,
louco para pegá-lo em meus braços,
louco para abraçar a mulher amada.

“José Alceu”
Levantei rápido ao ouvir meu nome.
Era o doutor que me chamava.

Alegria em minha face,
que aos poucos
transformou-se
em uma
tristeza
profunda.

Noutro dia em pé estava,
ao lado da sepultura,
vendo ir ao solo
aquele caixão de orvalho.

Helena se foi,
junto a ela,
Gabriel e Rafaela.

Sim, eram gêmeos,
não sabíamos!
No necrotério pude tocar
em seus perfeitos rostinhos,
e beijar pela última vez,
a face daquela que muito amei.

Não há palavras para tanta dor…

Hoje, meus filhos teriam a mesma idade
daqueles que brincavam naquela casa,
Helena seria tão bela e serena,
quanto àquela que me deu o pão,
eu seria tão feliz quanto aquele,
que acabara de chegar do trabalho.

Votos de extrema pobreza,
pois toda a minha vida e alegria
foram enterrados naquele
entardecer nublado e triste.

Hoje, vago maltrapilho,
comendo o pão, bebendo a água que me dão.
apenas isso,
esperando que o tempo passe,
e com ela a vida,
e que eu seja abençoado,
com um anoitecer silencioso,
que’eu feche os meus olhos
e possa encontrá-los eternamente
naquela casa de varanda,
onde mora a felicidade.

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