Todos contra o vermelho

Primeiro dia de aula de Mariana na escola. Criança nascida e criada no interior, inocente e bela.

Tudo era novidade para ela, o ônibus que a levou para a escola, o uniforme azul, a lancheira, as crianças para brincar, os livros.

Mas se tem uma coisa que deixou a doce Mariana maravilhada em seu primeiro dia de escola, foi uma caixa de lápis de colorir que ela ganhou de sua professora.

Doze lápis coloridos em uma caixa quadrada. Cada criança ganhou uma. Logo a professora deu a cada uma delas, uma folha com um desenho para colorir.

Com dificuldade Mariana abriu a caixinha, pegou em suas mãos os doze lápis. Seus olhos brilhavam, nunca vira nada igual e tão diferente.

Observou as demais crianças já familiarizadas com o objeto pontiagudo, espelhando o modo de pegar e movimentar aquele pedaço de madeira. Para o seu desenho visualizou as doze cores e escolheu o lápis vermelho.

Então pintou a roupa do menino desenhado. O sol, as árvores, o rio, tudo para ela era vermelho. Traçados fora das linhas, às vezes mais como rabiscos mesmo. Mas tudo era daquela cor que ela tanto havia gostado.

Assim foram seus doze dias de escola, tudo era vermelho, não importa o desenho que fosse. Para as outras cores nem olhava, ficavam depositadas na caixa quadrada, embaixo da carteira.

No décimo terceiro dia, a professora, depois que entregou os desenhos, olhou para ela, e quando Mariana tirava o lápis predileto da caixa, ela se ajoelhou ao lado da pequena, tocou em suas mãozinhas e pegou os outros onze lápis renegados.

A professora explicou à menina que aquele desenho para pintar era especial, pois representava a bandeira do Brasil. Então pegou os lápis verde, o amarelo e o azul, e falou o quanto era importante usar aquelas cores, pois o mundo todo era formado por diversas cores, e a bandeira tinha as suas próprias.


Mariana, pegando os lápis escolhidos pela professora, começou a pintar os locais em que aquela senhora, que a sua mãe pedia para tanto respeitar, havia lhe mostrado.

Após pintar a bandeira nas cores certas, a menina gostou do que viu, e foi naquele instante que percebeu que as outras cores também eram lindas.

Mas nem tudo era só alegria. Naquela noite o lápis vermelho, que estava muito seguro e envaidecido por ser o até então o único escolhido, sorrateiramente, enquanto as outras cores adormeciam, arrancou a ponta do lápis verde e do amarelo; e então dormiu tranquilo e sorrindo.

Noutro dia, para pintar uma casa desenhada, Mariana abriu a caixa, ignorou o vermelho e buscou o verde e o amarelo. Segurando-os em suas mãos, franziu a testa ao vê-los sem as pontas. Então esticou seus dedinhos para as outras cores, sendo o preto e o rosa as escolhidas. O vermelho ficou mais vermelho ainda, de tanta raiva que estava sentindo.

Naquela noite, quando as outras cores fingiam dormir, o vermelho outras pontas iria quebrar, mas foi pego de surpresa.

O azul e o rosa iriam quebrá-lo, mas o roxo e o marrom ficaram ao lado do vermelho, este por medo, aquele por acreditar nas palavras ditas por ele, que afirmava ser o líder da caixa, pois foi o escolhido por doze dias. A caixa estava em crise e dividida. Alguns adoravam o vermelho, outros o detestavam, e tinha aqueles que simplesmente queriam ser a cor que eram, não se importavam com o vermelho ou com a cor do vizinho.

Mas a caixa quadrada era pequena, e quando perceberam todos já estavam envolvidos, mesmo aquelas cores das extremidades, quase que isoladas. A briga então começou, vários lápis perderam as pontas, outros lascaram, mas o vermelho, com a sua cabeça desgastada, era durão, continuava inteiro com outros dois ou três lápis, que naquele momento, já não sabiam qual cor defendiam. Foi quando a porta da sala se abriu e as crianças entraram.

Desenho sobre a mesa, a caixa de lápis na mão de Mariana. Ela sorri, pronta para pintar, abre a caixinha quadrada. Os lápis em suas mãozinhas, olhar triste ao ver alguns quebrados, outros sem cabeça.

A menina então pensa por algum tempo. Levanta a cabeça e vê o seu coleguinha pegando um pote limpidamente transparente, e dentro objetos parecidos com lápis, contudo mais encorpados, íntegros.

A atenta professora, percebendo o olhar da pequena, aproxima-se e oferece a ela outro pote, limpo e transparente. Mariana abre o pote e segura um giz de cera em sua mão. Acha diferente, meio estranho. Cheirou, tateou e pintou o lindo desenho que estava a sua frente: o mar, as nuvens, o sol, um horizonte magnífico que ganhava cor.

Dizem que a velha caixa de lápis de colorir está até hoje abandonada num canto da prateleira. Nenhuma criança mais a pegou, e, aos poucos, os lápis foram perdendo a cor.

Mariana, também dizem, tornou-se professora e adora dar desenhos para os seus pequenos alunos colorirem com giz de cera.

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