"Carreira policial-militar: recortes e reflexões – Parte I"

Já ouvi muitas reflexões sobre a carreira policial-militar, sobre a diferença de tratamento entre oficiais e praças, questões de promoção e principalmente salariais. De tanto ouvir também chego as minhas próprias, na qual procuro ser racional o suficiente para provocar uma reflexão nos leitores, principalmente policiais. Repito, é uma percepção individual, que objetiva a reflexão diante a um olhar.

A Polícia Militar é uma instituição única, mas ela, assim como qualquer outra instituição, ela também é formada por cargos e salários diferenciados (a PM, por ser uma instituição militar, temos os chamados postos e graduações, e o salário é chamado de soldo). Assim, temos uma polícia e duas carreiras, a de praças e a de oficiais, cada qual com um meio de acesso. Os primeiros através de concurso público, cujos candidatos devem possuir ensino superior, e para ingressar na carreira dos oficiais o candidato, que deve ser bacharel em direito, também deve passar por um concurso público. 

Após passarem por curso de formação diferenciados, os dois caminhos possuem características peculiares: os oficiais ocupam posição de “gerência”, e chegam até a função de comandante geral. Cada estrela (promoção) significa um nível de comandamento, ou seja, juntamente com a promoção há um avanço de responsabilidade na carreira militar. Assim, o capitão pode comandar uma companhia, o major pode exercer o subcomando de um batalhão; o tenente-coronel a de um batalhão; assim por diante. Por outro lado temos os praças, a maioria soldados, designados como “executores”; e os subtenentes e sargentos, exercendo a função de “supervisores”. Entretanto, ser promovido na carreira dos praças não significa, necessariamente, uma mudança de responsabilidade na organização, pelo menos em sua maioria. Para exemplificar: não há diferença real entre soldado 3ª, 2ª, e 1ª classe. Também no círculo dos subtenentes e sargentos não há grandes diferenças. Para exemplificar: já vi ocuparem a função de sargento-externo, num mesmo período: 3º, 2º e 1º sargento, e exercia a função, também, um cabo.

Ou seja, ser promovido não significa a mesma coisa para as duas carreiras, portanto, muitos possuem motivações diferentes. Os oficiais: a oportunidade de comandar em diferentes níveis, além do aspecto financeiro, é claro. Os praças, quase que exclusivamente, financeiro; pois um soldado para se tornar sargento, necessita passar por teste seletivo interno, frequentar o curso para cabo e posteriormente fazer um teste seletivo interno, para depois frequentar o curso de formação de sargentos.

Considerando todo o dito, teço duas outras reflexões;

– Por que todo sargento quer ser subtenente, se na prática não há diferença funcional? A resposta todos sabem: ir para a reserva com o soldo de 2º tenente, ou seja, motivação salarial;

– Por que muitos soldados querem ser sargentos? (sim, digo muitos, não todos) A resposta é: para tentar se enquadrar no item anterior. Ou seja, motivação salarial e também, alguns, porque querem realmente exercer a função de sargento, que “ainda” é diferenciado da dos soldados: sargento comandante do policiamento externo, auxiliar de seção etc.

 Para comprovar o que penso, façamos uma enquete com algumas questões:

1-   Quantos entraram na polícia, como praças, sabendo das diferenças funcionais? Quantos sabiam quais eram os níveis hierárquicos? Quantos entraram tomando como base aquilo que viam, ou seja, a radiopatrulha, o policiamento ostensivo?

2-   Quantos soldados querem ser promovidos a cabo ou sargento simplesmente para exercerem uma “nova função”? 

3-   Quantos querem ser promovidos para aumentar o soldo?

4-   Quantos gostam de exercer a função de soldado e não trocariam de função?

5-   Quantos pensariam em passar por cursos de formação de sargentos, mudar de cidade etc, se o salário do soldado fosse compatível com a função?

Imagino muitas respostas, pois conheço vários colegas que gostam da função de soldado, querem continuar nas radiopatrulhas, não querem a graduação de cabo, sargento ou oficial. Simplesmente gostam da sua função. Assim como conheço sargentos que gostam da função que exercem e não almejam a carreira dos oficiais.

Assim, todos (ou a grande maioria) só falam em promoção porque é o único modo de aumentar o soldo, nada mais. Que se diga de passagem um soldado com vinte anos de instituição ser promovido para ganhar pouco mais de cem reais no soldo é algo para se chatear. Um sargento ser promovido para ganhar uma diferença de soldo de cem, cento e cinquenta reais, igualmente satírico (usando eufemismos).

Onde quero chegar com tais reflexões/lamentações:

1-   É ilusão pensar que todos os soldados serão subtententes, ou que todos os oficiais chegarão ao posto de coronel;

2-   É ilusão generalizar e pensar que todos os soldados querem ser sargentos ou oficiais.

3-   Se a promoção fosse automática, como muitos querem, teríamos soldados na rua, ou o sargento mais antigo comandaria radiopatrulhas de sargentos modernos?

 Resumindo: Diante o exposto, sou da opinião que:

1-   Houvesse uma previsão para que quem entrasse como praça, especificamente como soldado, que tivesse uma plano de carreira vertical em níveis, imaginando que a pessoa entrasse como soldado e fosse para a reserva como soldado. Soldado nível I, II, III etc, cujo soldo aumentaria a cada nível. Como ocorre em outras carreiras. Assim, seria possível subir 1 nível por ano, usando-se a meritocracia para isso, ou utilizando a avaliação semestral que já existe. Assim, a diferença de soldo que esperamos, hoje, por vários anos para receber, poderíamos receber a cada ano ou dois – Soldado 3ª Classe -7 níveis; 2ª Classe -7 níveis; 1ª Classe -7 níveis; Cabo -7 níveis; ou seja, seria, em tese, um nível por ano, no total 28 anos/níveis, contemplando, dessa forma, os 30 anos de serviço que um policial deve ter para entrar na reserva remunerada;

2-   Faria o curso de sargento realmente quem quisesse executar a função de sargento. Colocaria critérios objetivos para a seleção: mínimo 5 anos na instituição, pontuação por títulos (tempo de polícia, pós-graduação etc), etc. Os Sargentos também teriam seus níveis;

3-   Para mim independe se teria apenas uma porta de entrada para a polícia, contanto que fosse facilitado o ingresso dos praças na carreira dos oficiais, valorizando, dessa forma, o público interno, aquele que começou como soldado: mínimo de tempo de serviço, pontuação por títulos (tempo de polícia, pós-graduação etc), etc.

Pois bem, reforço que essas reflexões (por sinal, misturadas) são recortes da realidade, portanto fragmentos oriundos de audições e diálogos com colegas de serviço. Não pretendo, aqui, representar alguém, exceto os meus próprios pensamentos. E, como disse, o intuito é provocar uma reflexão, contrária ou não. Também há várias outras percepções possíveis sobre a carreira policial-militar, mas cada qual a seu tempo.

imagem 1:http://estevesporai.blogspot.com.br/2009_12_01_archive.html
imagem 2: http://www.tribunafeirense.com.br/noticias/982/concurso-da-pm-abre-vagas-para-2-mil-novos-policiais

2 comentários

  1. A PM foi feita para os oficiais. É sempre isso que escuto.Pois bem, realmente é verdade, analisando esse aspecto das promoções das classes, percebe-se que nunca foi pensado no praça, não há nada tanto no regulamento disciplinar quanto no estatudo da pm que traga algum benefício para a carreira de praça, os aumentos salariais, os cursos, todos os benefícios para eles são no mínimo em dobro, e não é hoje, e nem nunca será mudado esse panorama.

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