Auto da Barca do Inferno – O Ladrão

Cena VI

O LADRÃO

Aproxima-se mais um potencial passageiro para a barca do inferno:
Ladrão: (de chinelo de dedo, aparência humilde) Ei, o doutor, sabe me dizer onde estou?
Barqueiro: Com prazer, pé de chinelo! Está no abismo, terra perdida, caverna do cão, terra dos que não se levantam mais… Entendeu?
Ladrão: Se este é o inferno, quer dizer que estou morto?
Barqueiro: (batendo palmas) Parabéns, sábio rapaz, já que acertou, ganhou uma passagem de ida ao fundo do poço! Vamos, entre que a barca já está partindo.
Ladrão: Sei que muito eu errei, mas como foi que eu morri!
Barqueiro: (mexendo no livro) Eduardo Catatau, esse é o seu nome?
Ladrão: Sim, doutor.
Barqueiro: Tá, mas não tem nenhum apelido, “O Matador”, ou então, “Black”, ou ainda, “Doutor Catatau”?
Ladrão: Não senhor, só Eduardo Catatau.
Barqueiro: Oh, coisa chata! E quais são as desculpas para ir para o céu? Tem, não tem? Vai espernear, não vai?
Ladrão: (com voz humilde) Fiz muita coisa errada nessa vida…
Barqueiro: (fala irritado) Chega com essa lengalenga, querendo dar uma de bom moço, conheço bem o seu tipo. Se está aqui é porque fez coisa errada! (olha o livro) Ouça só: Eduardo Catatau furtou e mentiu, ponto. Isso já é o suficiente! (fecha o livro) Entre amigo, que o seu lugar já está reservado, sente-se ao lado do douto doutor!
Ladrão: (começava a entrar com a cabeça baixa)
Anjo: (grita) Espere, houve um erro, o lugar de Eduardo Catatau não é na angústia eterna!
 
Barqueiro: (farejando o ar) Sinto cheiro de sabão em pó! Estava bom até agora. O que faz aqui coisa branca?
Anjo: Resgatar uma pobre alma que não merece estar aqui…   
Barqueiro: (grita) Como não merece? Roubou, mentiu, quer mais que isso?
Anjo: Roubou para matar a fome do filho! Mentiu para conseguir sobreviver!
Ladrão: Isso é verdade, tudo o que fiz foi para proteger o meu filho querido!
Barqueiro: Silêncio, que morto não fala! Além do mais, minha cara branquela alada, mentir para conseguir emprego, roubar com a desculpa de alimentar seu filho, convenhamos, veio ao submundo por uma causa perdida, olha para o traste, vale um centavo?
Anjo: Vejamos o livro da vida! (abre e lê o livro) Seu Eduardo Catatau enviuvou quando sua esposa teve o filho. Eduardo não tinha parentes e com o filho recém-nascido passou necessidade, buscou emprego ou qualquer outro trabalho que lhe ajudasse a alimentar o pequeno. Como tinha o aspecto humilde todos negavam serviço. Falava que era para sustentar o filho, mas ninguém colaborava. Começou a mentir, ameaçando as pessoas, dizendo que iria matá-las ou atear fogo na casa delas, então pegava dinheiro e comida para conseguir passar mais um dia vivo com seu filho, mas nunca fez mal para ninguém. Ao perceber que seria melhor deixar a criança em um lar adotivo e buscar erguer a sua vida sozinho, para depois buscá-lo, tomou coragem e assim o fez. Então deixou a criança à porta de uma casa, tocou a campainha e saiu correndo. Entretanto, ao olhar para trás, para dar um último adeus ao seu pequeno filho, um ônibus o atropelou. E aqui, agora está, perdido, pobre alma injustiçada. Vim buscá-lo! (segura a mão do ladrão)
Barqueiro: (faz cara e gestos de gozação, assoando o nariz na capa) Como eu fico comovido com essas historinhas. Buá, buá, buá, pode levá que aqui almas nunca faltará, aliás, lá em cima sim, deve estar uma pobreza de almas boas, para vir buscar esse aqui embaixo, deve ser um desespero só. Veja branquela, a barca repleta, fique com inveja…
Anjo e ladrão: (ignorando as palavras do barqueiro, saem do cenário de mãos dadas, anjo conduzindo o ladrão)
Barqueiro: (olha para a plateia) Meu coração deve estar amolecendo. Houve épocas que eu teria arrastado ele para a barca. Mas como eu disse, aqui está sobrando, lá faltando. (fala para o vazio) Tchau branquela, tchau pé de chinelo! (fica em silêncio, olhando para o nada)

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