"Presos pela Leitura"

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A população carcerária, no Brasil, nunca esteve tão grande. São aproximadamente 500 mil presos em todo o nosso território. Nós temos, atualmente, o quarto maior número de encarcerados no mundo. Perdemos apenas para os Estados Unidos, com 2,2 milhões de presos, para a China, com 1,6 milhões e Rússia, com 740 mil encarcerados.

Embora esses números sejam incríveis, outro fato incrível, é que, ao menos na “Terra Brasilis”, não importa o crime que a pessoa tenha cometido: assalto, tráfico, assassinato;   ninguém fica preso por muito tempo, o que ocorre, na realidade, são algumas férias forçadas, nada mais.
Férias essas, que o cidadão de má índole, para não dizer vagabundo, alimenta-se várias vezes por dia, toma banho de sol, assistem tevê, têm visitas íntimas, alguns recebem auxílio financeiro para suas famílias, e muito mais.
Mas, disso tudo nós já sabemos, a novidade está por conta da portaria 276 do Departamento Penitenciário Nacional, publicada no dia 22 de junho. Nela diz que os presos que se dedicarem à leitura de obra literária, clássica, científica ou filosófica poderão ter as penas, em regime fechado ou semiaberto, reduzidas.
 
A cada publicação lida, a pena será diminuída em quatro dias. No total, a redução poderá chegar a 48 dias em um ano, com a leitura de até 12 livros. As normas preveem que o detento terá o prazo de 21 a 30 dias para a leitura de uma obra literária. Ao final da leitura, o preso terá que elaborar uma resenha que será analisada por uma comissão de especialistas em assistência penitenciária.
É meus amigos, uma nova ordem está sendo criada!
Depois do “Comando Vermelho”, do “Primeiro Comando da Capital”, dentre outros tantos que ouvimos na mídia, passaremos a ter nomes mais inspirados nas letras e na erudição. Imaginem o “Primeiro Comando dos Leitores Encarcerados”; ou ainda, “Ser ou Não Ser, Primeiro Comando da Capital”, ou os “Letrados do Pavilhão 9”.
Mas o mais impressionante será ver esses grupos eruditos agirem, e como eles não ficam presos por muito tempo, logo sairão às ruas, fazendo novas vítimas.
Imaginem vocês, cidadãos de bem, acostumados com o vocabulário típico desses safados: “Aí dotô, passa a grana ou estoro seus miolo”, ou então, “Cala boca e dá a grana”, dentre outras frases.
E então os doutos presidiários abordam você e dizem de maneira calma e educada: “Bom-dia senhor, por gentileza, passe-me todo o seu dinheiro, ou serei obrigado a feri-lo com a minha arma”; ou então: “Senhora, permaneça em silêncio enquanto subtraio o dinheiro de sua bolsa”.
 
Outros bandidos eruditos ainda poderão esnobar, utilizando a segunda pessoa do singular de modo fluente: “Senhorita, tu podes passar o dinheiro? Mas não esqueças os cartões e o relógio também!”
E, por último, poderão ocorrer aqueles, que só para mostrar conhecimento, assaltarão em outra língua: “Good morning Sir, give me all your money!” Contudo, ao perceberem que você ficou perplexo e paralisado, repetem no bom português: “Bom-dia senhor, dê-me todo o seu dinheiro!”
É evidente, caros leitores, que tudo isso é fruto da minha imaginação, pois assaltantes, criminosos eruditos é algo hipotético, nunca acontecerá, porque se eles tivessem o mínimo de inteligência, não seriam criminosos, e não estariam presos. Assim, eles continuarão falando daquela maneira tosca e típica, que todo delinquente sabe falar, pois bandido que é bandido, não aproveita as oportunidades que a vida e a lei lhes propiciam. Ofereçam livros, e eles atearão fogo; ofereçam trabalho, e eles rirão de nossa ingenuidade; ofereçam um lar, e eles ficarão nas ruas… Os legisladores que me desculpem, mas essa da leitura saiu pela culatra!

imagem 1 http://www.94fmdourados.com.br/noticias/brasil/preso-que-ler-livros-classicos-tera-pena-reduzida
imagem 2 http://www.cantareira.org/destaques/leitura-de-livro-passa-a-reduzir-pena-em-presidios-federais

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